Eu só sei sorrir

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(6/10 – Dodie)

Os dedos percorrem as teclas, vezes e vezes de novo, à procura de letras e palavras e qualquer coisa que expresse o indecifrável. A forma como seus olhos fecham-se lentamente durante um sorriso.  O fascínio pelas melodias todas. O gosto inexplicável por goiaba; o desprezo pelo suco que vem da fruta. O beijo.

O amontoado de sensações provenientes do toque. Os cinco, quinze, vinte minutos a mais antes de deixar a cama ao toque do despertador pela manhã. O rosto amassado pelo travesseiro. A barba falha que encontra o cabelo. O cheiro.

Você e eu. Nós. A história escrita em linhas tortas e incertas. O ponto de partida. Os passos percorridos desde então.

Quisera eu ser tão fácil colocar tudo em palavras… Ultimamente, parece que elas me faltam. E racionalizar coisas que talvez se deva unicamente sentir tem se mostrado uma tarefa quase impossível. Eu só sei sorrir. Sorrir e virar pro lado com cara de boba, tentando fazer de conta que não é tudo isso. Mas, no fundo, me pergunto: como alguém pode ter tanta sorte?

Questão de percepção

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(Imagem: We Heart It)

Uma segunda chance. Foi isso. Uma segunda tentativa em meio a um zilhão de novas possibilidades.

Eu costumava pensar que se continuasse insistindo, cedo ou tarde descobriria que meus esforços não foram em vão. Eis um fato curioso sobre a vida: às vezes procuramos demais, e, no fim, apenas descobrimos que aquilo que buscávamos, estava bem ao nosso lado. Parece idiota quando acontece, eu sei. Mas, é apenas a forma como certas situações se desenrolam.

Frequentemente, é apenas uma questão de percepção.

Determinado evento ocorre e, de repente, já não somos os mesmos. Em meio às nossas mudanças constantes, acabamos por perceber detalhes que antes teriam passado despercebidos. Ou, simplesmente, começamos a enxergar o mundo de outra maneira; coisa pela qual sou grata.

De tempos em tempos, essas mudanças me proporcionam uma oportunidade a mais de abraçar aquilo que a vida ofereceu de bom grado. É raro, mas, felizmente, acontece. O que é ótimo, porque eu odiaria ter perdido a chance de encontrar você.

Apenas humana

Domingos Martins, ES

Dizem que não se pode controlar aquilo que sente. Que se sente e só. Mas, às vezes, me pego pensando sobre como é tão mais difícil encontrar palavras que expressem corretamente o turbilhão de emoções – boas, ruins, indefinidas – que enfrentamos o tempo todo.

É possível ir da apatia aos sorrisos escancarados e incontroláveis em dois segundos. E é igualmente possível verter em lágrimas com semelhante facilidade. E os motivos nem sempre estão claros: há uma infinidade de variáveis pelas quais somos influenciados a todo momento e a forma como reagiremos a cada uma delas é, por vezes, imprevisível.

Talvez eu chore de cansaço e, no segundo seguinte, ria das piadas toscas de quem tenta me animar. Talvez eu sorria de desespero e, então, saia dançando pela casa em um piscar de olhos. Talvez me tranque em casa no escuro ou faça do coração morada e deixe o resto pra lá. Talvez eu seja louca. Sei lá. Ou, talvez, eu seja apenas humana.

[RESENHA] Não me abandone jamais, de Kazuo Ishiguro

Não me abandone jamais

São histórias de aparência inofensiva que, frequentemente, me desarmam.

Quando finalmente comecei a ler “Não me abandone jamais”, a leveza com que cada memória de Kathy H. me foi introduzida por um momento fez com que eu esquecesse que já conhecia o fim daquela história. Isso porque embora somente tenha tido o livro em mãos há poucas semanas, cinco anos atrás tive o prazer de assistir ao filme baseado na obra de Kazuo Ishiguro. (Na adaptação, os protagonistas são interpretados por Carey Mulligan, Keira Knightley e Andrew Garfield).

Pois bem. Como eu disse anteriormente, é através das memórias de Kathy H que somos apresentados à história – que trata, na verdade, de uma perturbadora realidade. No começo do livro ela tem então 31 anos e há mais de um terço de sua vida tem sido cuidadora em centros de recuperação. Agora ela se prepara para deixar o cargo e se tornar uma doadora – uma mudança que faz com que Kath venha a refletir sobre os anos que antecedem o começo da narrativa em questão.

O livro é dividido em três partes. Entrarei em detalhes apenas sobre a primeira, que é um panorama dos acontecimentos mais marcantes da infância e adolescência de Kath e seus colegas – dentre eles a melhor amiga Ruth e o problemático Tommy – em Hailsham, uma espécie de internato no interior da Inglaterra. Sob os cuidados de “guardiões”, eles aprendem sobre assuntos como arte e disciplina, sexo e geografia e sobre coisas que não devem ser mencionadas – como os limites da escola (que jamais poderiam ser ultrapassados, pois os rumores diziam que uma garota havia morrido ao tentar fazê-lo) e o porquê de  uma galeria (para a qual Madame leva todos os melhores trabalhos produzidos pelos estudantes).

Entretanto, se os anos no internato foram complicados o bastante, a vida pós-Hailsham foi algo mais. Os mistérios pelos quais estiveram cercados na infância começam a se desfazer e o choque com o “mundo real” coloca à prova não apenas a amizade de Kath, Ruth e Tommy, mas, também tudo aquilo em que pensaram acreditar.

“E assim você já está na expectativa, mesmo que não saiba bem disso. Está à espera do momento de dar-se conta de que de fato é diferente deles; de que existem pessoas lá fora, como Madame, que não odeiam você, nem lhe desejam nenhum mal, mas que ainda assim estremecem só de pensar em você – de lembrar como você veio a este mundo e porquê -, e que sentem pavor diante da simples possibilidade de que sua mão roce a mão deles. É um momento gélido, esse, o da primeira vez em que você se vê através dos olhos de uma pessoa assim. É como passar diante de um espelho pelo qual passamos todos os dias de nossas vidas, e de repente perceber que ele reflete outra coisa, uma coisa estranha e perturbadora”. (p. 50)

Com um amontoado de palavras organizadas de maneira suave, Ishiguro é capaz de despedaçar corações ao colocar em questionamento o que existe de melhor e de pior em nós, seres humanos. Pouco importava o que aqueles jovens sonhassem ou fizessem; e pouco importava o quanto tentassem ser “como as pessoas normais”. O destino de cada um deles havia sido traçado antes mesmo de serem criados.

Depois do filme, eu já nem tenho certeza de que há algo a revelar, mas, por via das dúvidas, paro a resenha por aqui e deixo a sugestão para que leiam. É uma daquelas histórias que mexem com a gente de formas indescritíveis, ainda que a percepção sobre isso só venha ao final da leitura. Como eu disse ali em cima, esse livro em particular é um amontoado de palavras suaves; e separadas elas fazem bem pouco por quem quer que seja. Não é um livro de citações bonitas. É um questionamento constante.

Quando o resto cala

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[Bird of Sorrow – Glen Hansard]

O cheiro forte do café se espalha pela casa enquanto Glen Hansard canta baixinho ao fundo. É um momento de mais pura tranquilidade. O tipo de calmaria que ignora copos sujos espalhados pela casa e faz vista grossa pro emaranhado de lençóis. Uma daquelas memórias que se quer guardar com carinho para quando a rotina pesa e o tempo se torna escasso.

Uma risada ecoa brevemente ao lembrar de alguém dizendo que o amor é para idiotas. Mas, idiotice mesmo seria não se deixar comover pelos detalhes que fazem o resto valer a pena. A forma como as mãos se unem, brincalhonas. A pinta atrás da orelha. O sorriso bobo entre piadas que, na realidade, só tem graça com o senso de humor certo. As histórias escritas na pele. As melodias todas de quando o resto do mundo cala.

É que um dia desses o amor vai te encontrar de novo. E talvez seja uma daquelas coisas – coisas bem coisadas mesmo – que não precisam fazer sentido. Desde que sejam, que aconteçam. E estejam carregadas de vontade.

[INDICAÇÃO] Assistindo ao filme “Ginger e Rosa”

Ginger e Rosa

O primeiro post do ano – peço perdão pelo atraso pois estava em Minas e sem meu computador – é sobre um daqueles filmes que tem tudo para revirar nossos pensamentos. Ginger e Rosa é um drama escrito e dirigido por Sally Potter (The Gold Diggers, Orlando, The Tango Lesson, Yes, Rage, The Man Who Cried), lançado em 2012.

O filme relata a história de duas amigas inseparáveis – Ginger e Rosa – descobrindo o mundo e a si mesmas em meio à caótica Londres da década de 1960. E embora fossem melhores amigas, as adolescentes não poderiam ser mais diferentes.

Cena do filme Ginger e Rosa

Rosa (Alice Englert) sempre foi a mais ousada, encarando a vida com toda a intensidade que acredita necessitar. Ela passa por cada dia como se fosse o último a viver, ao passo que Ginger (Elle Fanning) – aspirante a poeta – é consumida por outro tipo de rebeldia. Incentivada pelo pai pacifista, a garota logo se torna uma militante contra a guerra. E ainda que ajam de maneiras diferentes, as amigas “só querem ser livres”.

Entretanto, a liberdade que buscam é incerta. Enquanto aspiram a uma vida melhor que a rotina doméstica que as fez desprezar as próprias mães, elas começam a enxergar em Roland – o pai de Ginger  – alguém digno de idolatria. Ele incentiva a elas que “lutem contra a bomba” (uma referência às ameaças de ataques nucleares em decorrência da Guerra Fria) e, por um tempo, isso basta. Porém, a amizade das garotas é abalada quando Ginger percebe que Rosa possui outros interesses em mente.

Em geral, é um filme interessante. O enredo é costurado por questões que vão além do mero drama familiar e a relação das amigas é explorada com uma atenção especial aos detalhes – que fazem toda a diferença ao longo da história. Os aspectos estéticos do filme também são cativantes. A fotografia e a trilha sonora, principalmente, trazem uma dose extra de emoção às cenas.

Assim, deixo aqui a indicação do dia. Espero que gostem.

Há muito mais que isso

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Eu tenho tido problemas em enxergar o lado bom. Engraçado dizer isso quando, tempos atrás, meus amigos me fuzilavam com os olhos sempre que eu tentava minimizar alguma reclamação. É que, ultimamente, tudo anda instável, e, mais que nunca, tenho tido a necessidade de parar por um momento e simplesmente respirar.

Não é a primeira vez e, honestamente, duvido que seja a última, mas eu nunca soube lidar com a sensação de perder o controle sobre mim mesma.

Uma xícara de café e observar um cachorro correndo apressado junto ao dono que tropeça pela calçada geralmente ajudam. Ou, então, um daqueles momentos em que eu já estou desistindo da humanidade e ouço coisas como “mas, com 2 reais eu compro 3 ovos e já posso fazer o bolo da T. Ela gosta tanto daquele bolo”. Eu também, T. Eu também.

Nesses pequenos momentos preciosos percebo que eu perco tempo demais tentando fazer sentido das coisas na minha cabeça – e às vezes acabo esquecendo que há vida aqui fora. E apesar de o caos interior ser constante e de existirem dias em que eu me sinto um desastre completo, há muito mais que isso. Confuso como é, talvez eu só preciso encontrar meu rumo.